A primeira Copa do Mundo de Clubes despertou dúvidas, mas veio para ficar. Depois dos primeiros embates entre europeus e sul-americanos, o torneio ganhou tração, e a Fifa já pensa no próximo, que pode até ser no Brasil, em 2029. Nos bastidores, a entidade máxima do futebol não esconde que o modelo de enfrentamento atraiu o interesse de todo o mundo, sobretudo dos mais jovens e no ambiente digital, apesar da imprensa europeia ainda desvalorizar o torneio.
A Fifa entende que os clubes sul-americanos "deram vida" ao Mundial a partir do desempenho inicial contra equipes da Europa. E projeta o ápice da demonstração de força da América do Sul em todos os sentidos com uma possível partida entre Flamengo e Boca Juniors, em Miami, nas oitavas de final.
A FIFA se orgulha da atmosfera única e multicultural que esta nova competição já gerou enquanto se consolida como o ápice indiscutível do futebol de clubes global — afirmou Infantino, que desde o início de sua gestão deixou claro que a Fifa queria tornar o futebol de clubes global, além da Europa.
Quando foi reeleito, em 2019, o dirigente avisou que era necessário descentralizar o futebol.
O futebol hoje é global, mas todas as receitas vão para o mesmo lugar. Um grupo muito pequeno de clubes, eu diria 10, concentram todas as chances de serem campeões do mundo. Eu quero que 50 clubes possam ter essa chance, e pode ser 25 da Europa, mas os demais do México, do Brasil, dos EUA, da China e de outros lugares — completou Infantino.
A primeira edição do torneio, inclusive, seria na China, em 2021, mas a pandemia da Covid-19 adiou os planos. Agora, espontaneamente, Brasil e Espanha já manifestaram interesse na realização da Copa do Mundo de Clubes em 2029. A resistência vem das ligas nacionais europeias, principalmente da Espanha e da Inglaterra. Javier Tebas, presidente da La Liga, disse que seu objetivo é "eliminar" o novo torneio.
Por outro lado, a Fifa ganhou apoio da Associação de Clubes da Europa, da Conmebol e das demais federações ao redor do mundo para seguir firme. Os embates entre sul-americanos e europeus ajudaram a promover a força da competição. Em Miami, conversas de corredores em eventos da Fifa mostram que há alinhamento político e econômico para seguir em frente. O presidente da CBF, Samir Xaud, conversou com Infantino na sexta-feira e manifestou o interesse do Brasil de sediar a próxima edição.
Foco no digital
Os jogos de Flamengo e Boca Juniors contra Chelsea e Bayern de Munique, respectivamente, foram especialmente comemorados pela Fifa. O primeiro com público de 54 mil torcedores e o segundo com quase 64 mil. Além disso, mais de 75 mil foram ver Real Madrid e o mexicano Pachuca. Na partida de abertura entre o recordista de títulos africanos Al Ahly FC e o Inter Miami de Messi estiveram 60.927 pessoas, no Hard Rock Stadium. Apenas um dia depois, 80.619 torcedores encheram o Rose Bowl, em Los Angeles, para assistir a Paris Saint-Germain e Atlético de Madrid — o maior público que qualquer um dos clubes teve em seus jogos durante as temporadas de 2024/25.
Num momento em que o futebol disputa a atenção das novas gerações com novos hábitos de consumo de entretenimento, a competição também tem forte foco no digital. A promoção online ganhou tração no segundo semestre do ano passado. Jogadores, influenciadores e até jornalistas protagonizaram o conteúdo digital nas contas oficiais do torneio. Entre os mais conhecidos dos brasileiros, apareceram nomes como o brasileiro Luva de Pedreiro (21,2 milhões de seguidores no Instagram), Fabrizio Romano (37,4 milhões) e o americano Speed (36 milhões).
O último, fenômeno do conteúdo esporte ao redor do mundo, esteve presente na tribuna de honra de partidas e chegou a receber Infantino em uma de suas lives antes do Mundial. Foi nela, inclusive, que o presidente da Fifa revelou que havia possibilidade de que Cristiano Ronaldo disputasse a competição. O que acabou não acontecendo, mas virou pauta nas redes e nos noticiários semanas antes do início da bola rolar nos Estados Unidos.
Ao longo de sua concepção e realização, a Copa do Mundo de Clubes foi recebida "com faíscas" pelos clubes europeus, que alegavam questões de calendários e até financeiras para não disputá-la. Ao mesmo tempo, Infantino construía pontes entre o futebol de clubes de outros continentes e a Fifa. Entre 2019 e 2023, o dirigente foi um dos apoiadores da milionária African Football League, competição que tentava revolucionar o futebol do continente financeiramente e esportivamente, mas que acabou tendo apenas uma edição disputada.
As nações da África e da Ásia sempre foram focos de Infantino tanto na gestão da Fifa quanto em questões eleitorais. Em sua primeira campanha de reeleição, em 2019, fez uma turnê pelos continentes e ganhou a eleição por aclamação - o que aconteceria novamente em 2023. Cria do comitê de reformas da Fifa, o dirigente voltou a ressaltar a importância que via no futebol de clubes em congresso da CAF (confederação africana) em outubro do ano passado.O futebol de clubes foi a base do futebol. Nasceu como um movimento nacional. Ficou mais continental, mas depois de 150 anos de história do esporte, é hora do futebol de clubes se tornar global. Vai contribuir para desenvolver o futebol na África e em todos os cantos do mundo, porque essa é a nossa missão.
Gameficação e meme em tema musical
A busca pela atração de um público nativamente digital também aparece na estética do torneio. As entradas em campo, com os atletas anunciados nome a nome, e o protocolo de entrada com bandeiras e formação dos jogadores em campo, mais os elementos e ferramentas gráficas das transmissões reforçam uma ideia de 'gameficação', a utilização da linguagem dos jogos - neste caso, dos video games - para engajar, reter e entreter a audiência. Algo que La Liga vem implementando há alguns anos na Espanha.
O "Nanana", verso do tema musical da competição, também bastante comentado em redes sociais, é outro elemento oriundo do contexto digital do consumo de futebol. A canção é o hit do eurodance "Freed from desire", da cantora italiana Gala, que virou "meme" após ser adaptada por torcedores da Irlanda do Norte para exaltar o atacante Will Grigg na Euro de 2016 - a versão "Will Grigg is on fire". Desde aquela competição, a música virou um dos hinos não oficiais do futebol mundial, frequentemente tocada em estádios.
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